Irene – Parte 2

Irene - Parte 2

 

Irene pendia monótona, confortada na tempestade fumegante. Esquecia-se do átimo estúpido em que perdeu a caçada de si. Acompanhava a corrida das gotículas nas paredes, seus caminhos tortos, suas interrupções frequentes (não sabia bem se reparava as gotas ou a própria vida).

O boxe alagava, os pés afogavam-se na água ensaboada, Irene movia esporadicamente as (mais…)

Irene – Parte 1

Irene - Parte 1

 

um silêncio… Normalmente é assim que se inicia um grande feito, ou qualquer coisa que se classifique como tal. O sol começa a tornar-se opaco, dando lugar as luzes elétricas. Lá fora tudo fica amarelo-pálido-alaranjado, aos sons de motores e burburinhos urbanos. O sol vai deslizando pela sala, chão de madeira ressecada, embotado de (mais…)

Mormaço

Mormaço

O mormaço de São Paulo combina com varandas, com sacadas apertadas,

combina com respiração contida, com um divagar entre carros
combina com um isqueiro vazio, uma faísca à toa,
com mãos de esmalte descascado alcançando Bárbara Eugenia na prateleira,
com uma caneca de asa quebrada escrita “café”, mas gelada por chá
o mormaço de São Paulo combina com dança,
dança ao vapor
no limiar do horizonte
JL

O violão

O violão

Hoje na loja de instrumentos musicais, fiquei com vontade de ver um violão melhor (só ver mesmo, afinal, o dinheiro já anda curto até pra comprar cordas novas).
Perguntei dos violões e é engraçado que sempre me sugerem os que têm entrada pra amplificador, do tipo meio cá meio lá (meio violão, meio guitarra).
“Quero um violão clássico, algo sem nenhum aparato elétrico. O que você tem desse tipo?”
Ele pegou um com aspecto mais desbotado, com um ar grave, uma seriedade de seiscentos reais.
Sentei-me pra tocar e o som saía de uma forma muito bonita, numa facilidade incrível. Cada corda tinha seu respeito nele, nenhuma com privilégios a mais ou a menos.
Fiquei tocando várias músicas pra sentir a maneira que o som ganhava vida naquele violão. “Irene” do Rodrigo Amarante ficou muito mais bonita, “Dois Barcos” do Marcelo Camelo então, nem se fala. Escaparam alguns folks do Iron and Wine, lembranças da Rachel Sermanni… Parecia que o violão dizia para todos que ouviam, “Um momento de sua atenção, pois tenho algo a dizer pra vocês”.
O braço era de mogno e as casas não tinham sinalização como os violões comuns, eram mais separadas, quase um abismo.
Ele encaixava engraçado nas minhas mãos, parecia me rejeitar, dizendo de alguma forma que não tinha sido fabricado pras minhas mãos amadoras, mas eu pedia licença e dizia
“Ah, deixa eu imaginar que sei, deixa eu fazer soar os acordes mais bonitos que decorei… Deixa que as pessoas pensem que nascemos um pro outro…” e de alguma forma, ele deixou.
JL

Menino

Menino

às vezes você se sente perdido, não é menino?
e as vezes você sabe que essas vezes acontecem mais do que deveriam
a vida parece te escapar por entre os dedos
enquanto você tenta achar um modo de fazê-la finalmente acontecer pra valer
você passa da hora de dormir de propósito,
porque já se cansou de tanto sonho te amolando
pedindo no pé do ouvido: me deixa sair!
às vezes você se sente aquele que sobrou numa festa que já começou vazia
se sente só, num mundo cheio
e aos 20 vai perceber que o mundo não é bem aquele que você prometeu a si mesmo quando tinha seus 12 anos
tantos nós cegos e tão poucos desenlaces

eu sei menino, eu entendo… entendo porque um dia já fui menino
e te adianto daqui, daqui desses tantos anos
que não descobri tanto quanto essas rugas insinuam

descobri que a nota Sol é uma das mais bonitas
e que as vezes é só disso que precisamos
orbitar sóis forjados por nossos dedos
deixar que ressoem… que nos aqueçam

isso não é exatamente uma resposta pra nada, eu sei…
mas é algo, menino…
é algo
JL


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